O Medo do Mar

Acho que no fundo, mesmo sabendo nadar, sempre tive medo do mar...
Chamava-lhe respeito pela sua magnificência, numa tentativa de não assumir o medo que ainda trago dentro de mim e que de vez em quando se manifesta para eu poder ver que ele ainda existe em mim.
Tenho medo de mergulhar e deixar-me envolver nas ondas de um mar revolto ou de ser levada pela corrente para um sítio que eu não controle.
E nunca consegui usufruir verdadeiramente da sensação de ser levada e sentir prazer em boiar à superfície, com medo de alguma forma ser puxada até às profundezas.
O mesmo se passa com o mergulho nas minhas águas. Sempre que tenho medo de ser levada às minhas profundezas, acabo por não desfrutar de andar à superfície.
Acho que só quem se permite ir descobrir as profundezas do seu mar e conhecê-las bem na sua escuridão, pode sentir o prazer de viver à superfície.
É normal que sintamos medo... É um sítio escuro, desconhecido, profundamente silencioso e cheio de "perigos": seres marinhos, rochas, buracos, correntes, areias... coisas que nos podem prender lá em baixo, matando toda a possibilidade de voltar à superfície para respirar novamente.
É preciso coragem para ir lá abaixo...
Mas quando já conhecemos o fundo, podemos sentir prazer em estar à superfície, e não só porque respiramos, mas porque toda a experiência em si é segura e feliz, pois já conhecemos e enfrentámos os perigos que estão por baixo dela.
Cada vez que vou um pouco mais fundo nas minhas águas e conheço um pouco mais das minhas profundezas, gosto de ir até junto do mar como que a dizer-lhe: "Olha, já fui um pouco mais fundo nas minhas águas!"
E aí conecto-me com a imensidão das águas do mar através do olhar, e ao fim de uns minutos sinto uma paz tão grande porque o próprio mar me traz novamente à superfície, sem que seja preciso dizer uma só palavra.